
Passei boa parte da minha vida aprendendo a ser útil. Útil para o trabalho, para os negócios, para a família, para as pessoas que amo e, tantas vezes, para resolver aquilo que ninguém mais queria resolver. Talvez por isso tenha aprendido também que existe uma armadilha nessa palavra. Nem tudo o que é útil precisa produzir dinheiro, resolver um problema ou apresentar algum resultado concreto. Às vezes, realizar um sonho aparentemente sem finalidade prática é extremamente útil, simplesmente porque alimenta aquilo que somos. Uma viagem desejada durante anos, uma experiência, uma conquista pessoal, um prazer ou até um momento dedicado exclusivamente a nós mesmos podem não produzir nada além de felicidade. E desde quando felicidade é pouco?
Com o tempo, também passei a olhar de outra maneira para aquilo que chamamos de fútil. Gosto do belo, gosto de me cuidar, gosto de viver bem, de celebrar minhas conquistas e de usufruir daquilo que construí. E não considero que exista qualquer problema nisso. O perigo começa quando confundimos prazer com propósito e passamos a preencher nossos dias com coisas, relações, aparências ou experiências efêmeras que oferecem satisfação imediata, mas deixam um enorme vazio quando passam. Há uma diferença importante entre desfrutar da vida e tentar preenchê-la.
Por isso, antes de algumas decisões, aprendi a me perguntar: eu realmente quero isso? Isso conversa com quem sou? Vai acrescentar alguma coisa à minha história? Nem sempre a resposta precisa ser racional ou economicamente justificável. Um sonho não precisa apresentar uma planilha de resultados para merecer ser vivido. Mas precisa fazer sentido para quem o sonha. É justamente aí que, para mim, está a fronteira entre aquilo que parece fútil e aquilo que verdadeiramente se torna inútil: o inútil é o que ocupa nosso tempo, consome nossa energia e, depois de tudo, não nos acrescenta experiência, felicidade, aprendizado, memória ou transformação.
Chegar a essa compreensão exige coragem para viver segundo os próprios valores. Quem conhece sua história e sabe onde pretende chegar e não precisa justificar cada desejo aos olhos dos outros. Aprende a trabalhar muito pelo que importa, a desfrutar sem culpa do que conquistou e, principalmente, a dizer não ao que apenas ocupa espaço. Porque uma vida plena não precisa ser útil o tempo inteiro. Precisa, acima de tudo, fazer sentido. E talvez a verdadeira sabedoria esteja justamente nisso: saber distinguir aquilo que apenas passa daquilo que permanece em nós.


















